Lógica, Autocrítica e outras características em vias de extinção

Eu poderia começar por dizer que vivemos numa era digital, mas isso já não é novidade para ninguém, ou pelo menos não deveria ser; a facilidade com que se expõe uma ideia aos olhos do mundo é algo cada vez mais acessível a qualquer pessoa com um mínimo de esforço ou mesmo conhecimento técnico.

Derrubar barreiras é algo positivo, facilitar a entrada de pessoas com mérito e conhecimento que podem contribuir para a evolução do mercado e do mundo em geral. O que me aflige de verdade, é ver que no geral grande parte das pessoas e empresas que a certa altura se auto-promovem como profissionais, não evoluem em paralelo com o mercado. Do lado das empresas continuamos a ter entregas serviço com baixa qualidade, enquanto do lado dos profissionais continuamos a ter operadores de ferramenta em vez de exploradores e pensadores… E não, não estou a dizer que é mau ter operadores de ferramenta, o que é mau é ter operadores de ferramenta que não admitem ser simplesmente isso. Não posso deixar de sentir o desconforto da preguiça do ser humano — seja ela física ou mental — sempre que surge a necessidade de interpretar, assimilar e explicar quer características ou modo de funcionamento de um sistema holístico. Para quem desconhece o conceito, a definição de holismo pode ser encontrada na Wikipedia; e não, não é uma religião ou crença espiritual (embora possa soar como tal):

Holismo (do grego holos que significa inteiro ou todo) é a ideia de que as propriedades de um sistema, quer se trate de seres humanos ou outros organismos, não podem ser explicadas apenas pela soma dos seus componentes. O sistema como um todo determina como se comportam as partes — Holismo, Wikipedia

Motores de busca e algoritmos fazem parte de um sistema holístico. Qualquer motor de busca é um sistema composto por partes (algoritmos), essas partes não podem ser interpretadas isoladamente. Isto é, não podemos assumir como um motor de busca funciona de uma maneira factual apenas porque entendemos como funciona um dos seus algoritmos. Cada algoritmo funciona de uma maneira diferente, e esse funcionamento individual pode mudar de acordo com o funcionamento de algoritmos vizinhos. Resumindo, o funcionamento de um motor de busca é algo que não pode ser explicado de uma forma simplista, ou associada a uma “receita de bolo”, pois os “ingredientes” estão sempre mudando.

Quem convive profissionalmente comigo no dia-a-dia ou quem já teve oportunidade de me ouvir falar sobre temas como “eficiência” e “lógica”, sabe que essas são duas características que considero fundamentais para tomar decisões e evoluir no mundo em que vivemos. São também as duas características do ser humano que mais me incomodam sempre que sinto a ausência delas.
Sempre que entrevisto candidatos para alguma das nossas vagas, procuro fazer uma avaliação não só do nível de conhecimento especializado da pessoa, mas também da capacidade de cada um se reinventar, de ser autocrítico e de seguir princípios lógicos. Acredito que estas são características fundamentais para qualquer profissional que tenha como ambição vencer no mercado e no mundo digital em particular, mais especificamente dentro de áreas ligadas ao Marketing e aos motores de busca.

Non sequitur

É fácil fazer a conta: Pessoas mal preparadas x Ferramenta + Automação = Desastre
Non sequitur
Infelizmente é este o cenário que predomina em grande maioria no mercado de Marketing Digital e de uma forma gritante nas áreas de SEM, SEO e Mídias Sociais. Fazem-se afirmações e especulações de uma forma desmedida sem pensar minimamente no resultado. É como se a pessoa estivesse dissertando sem nunca conseguir ouvir ou refletir sobre aquilo que acaba de afirmar… Por vezes até se contradizendo em várias alturas. Tenho até vontade de parar a pessoa no momento: “Espere aqui… Eu vou ali e vou repetir exatamente aquilo que você acabou de dizer…”. Cada vez mais tenho a sensação que a adoção de ferramentas aliadas a um despreparo racional leva a pessoa para um estado de preguiça mental, contribuindo ao mesmo tempo para a falta de capacitação… Afinal preguiça física até pode ser tolerável, mas preguiça mental dentro de um mundo digital em constante reboliço é algo que chego a considerar falta de competência e responsabilidade.

Meu amigo e sócio Douglas Hertz costuma dizer sempre durante suas palestras: “Em automação, o difícil não é automatizar, mas sim controlar o resultado”. Acredito que o mesmo princípio se aplica ao profissional que fica dependente de ferramentas para execução do seu trabalho, ou que adota a famosa “receita de bolo” que eu sempre associo com as más práticas de SEO no mercado. Na minha opinião, e por ter tido experiência em entrevistar e avaliar candidatos, acredito que quem procura “receita de bolo” muito provavelmente são “profissionais” que não entendem o sistema como um todo e a importância de ter um diferencial, ou que não vão saber resolver um problema na altura em que surge algo inesperado. O melhor profissional não é aquele que tem mais experiência em usar ferramenta ou que faz X, Y ou Z desde 1992, mas sim aquele que sabe usar conceitos de lógica, autocrítica e coerência no decorrer da sua carreira profissional.

Todo o mundo fala que a o mercado X morreu ou que Y já não é o que era. Talvez X nunca tenha sido serviço que muitas das empresas vendiam ou a disciplina em que de repente todas as pessoas se auto-promoviam como experts e profissionais. Grande parte da indústria estava vendendo Chico em vez de Francisco… Alguns dos meus seguidores no Twitter provavelmente se lembram de tweets como este:

Não posso deixar de ter a sensação que as pessoas esqueceram de pensar de forma lógica e coerente! Grande parte do mercado que nasceu com a era digital dos motores de busca, mergulhou de cabeça e sem ponderar em algo que aparentava ser “sucesso fácil”; de repente o gigante se sacudiu e todo o mundo saiu correndo sem saber mais o que fazer… Desde empresas que finalmente entenderam que não escalava mais definirem sua marca como uma pequena parte do sistema (SEO anyone?) até profissionais que ficaram sem saber o que fazer agora que o seu “chão” sumiu.

Espero que estes últimos anos tenham servido de aprendizado para todos os profissionais do mundo digital. Que tanto empresas como profissionais entendam que vender “aperto de parafuso” não é o mesmo que vender a “manutenção da máquina”; e especialmente que bons profissionais não são necessariamente aqueles que têm mais anos de experiência. Acredito que bons profissionais se caracterizam não só pela capacidade de pesquisar e se desenvolver — Explorar e manter-se informado sobre o que está acontecendo na indústia; questionar execução e resultados; procurar sempre inovar e sair da zona de conforto — mas especialmente pela capacidade de resolver problemas — como a pessoa reage quando o inesperado acontece.

Precisamos adotar mais lógica, autocrítica e pensamento racional em vez de apenas usar mais ferramentas ou definir estratégias limitadas.

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Comments

  1. says

    Bom dia Pedro,

    Vinha apenas informá-lo de um “erro” que talvez queira corrigir no texto. Quando escreve “Na minha opinião pessoal”, está a reforçar o seu EU de forma errada. É o chamado pleonasmo =)
    Bom, mas aproveito para dizer que gostei muito do seu artigo e concordo plenamente com essa tendência (contra mim falo). Nos mais novos então acho que é geral pois parece que já nascem sem essas características e é cada vez mais difícil incutir-lhes essa forma de pensar/analisar o que os rodeia.

    Cumprimentos,
    Rui

  2. says

    Olá Pedro,
    Você fala de um assunto que sempre me preocupou, eu sinceramente nunca tive condições de mergulhar nas infinitas fórmulas, técnicas ou macetes que sempre pipocaram por aí vindas de todos os cantos…

    Eu estou achando ótima a nova realidade que vivemos, muito mais inspiradora, mais pé no chão e menos técnica, pra mim está na dose certa!

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